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A Perda de Significao do Homem Moderno
 
NUM PERODO DE TRANSIO, quando os antigos valores esto vazios e os costumes tradicionais deixam de ser 
viveis, o indivduo experimenta uma dificuldade particular em encontrar-se no seu mundo. Mais pessoas sentem, com 
maior pungncia, o problema de Willie Loman em A Morte de um Caixeiro Viajante: 
Ele nunca soube quem era. O dilema bsico, inerente  conscincia humana, faz parte de toda experincia psicolgica e 
est presente em todos os perodos histricos. Mas, em pocas de radical mudana cultural, como nos costumes sexuais e 
convices religiosas, determinados dilemas, que so expresses da situao humana bsica, tornam-se mais difceis de 
tratar. 
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Para comear, coloco a seguinte questo: No ser um dos problemas centrais do homem ocidental moderno que ele se 
sente despido de significao como indivduo? Focalizemos aquele aspecto da sua imagem de si mesmo que consiste na sua 
dvida sobre se pode ou no atuar e na sua convico semiconsciente de que, mesmo que atue, isso no lhe acarretar 
vantagem alguma. Isto constitui apenas um aspecto da imagem que o homem contemporneo faz de si mesmo, mas  um 
aspecto psicologicamente decisivo  uma falta de confiana da pessoa em si mesma que reflete todo o tremendo poder 
tecnolgico que se avoluma em redor dela, a todo o instante, para eclipsar, de um modo irresistvel, os seus dbeis esforos 
pessoais. 
Trata-se de uma evoluo cultural do problema de identidade, o qual foi destacado com lgica irrefutvel e convincente, 
na dcada de 1950, por analistas do gabarito de um Erikson e de um Wheelis. Pessoas de toda a 
espcie, nos dias de hoje, especialmente os jovens, diagnosticam as suas dificuldades, quando 
recorrem a um conselheiro ou a um terapeuta, como uma crise de identidade  e o fato dessa 
expresso ter ficado trivial no deve levar-nos a esquecer que tambm pode ser momentosamente verdadeira. Hoje em dia, 
o sentido do Eu  deficiente. As interrogaes da adolescncia  Quem sou eu, Para onde vou?, Qual  o significado da 
vida?  no recebem respostas finais. Tampouco podem ser postas de lado. A incerteza persiste, escreveu Allen Wheelis 
em 1958. 2 E prossegue, a respeito do progresso tecnolgico dos nossos tempos, na cultura e na sade: Mas tanto quanto 
o nosso tempo de vida aumentou, o nosso tempo de vida significativa tambm diminuiu. 
A minha tese  que o problema da identidade, na dcada de 1950, tornou-se agora, mais especificamente, a crise da perda 
do sentido de significao.  possvel carecer de um sentido de identidade e, mesmo assim, conservar ainda a esperana de 
exerno devemos permitir que o nosso cansao de tais generalidades 
nos leve a embotar a nossa percepo do que est acontecendo  nossa volta, a encobrir a nossa conscincia do significado e 
implicaes do tempo histrico em que vivemos, ou a escondermo-nos atrs da confortvel e segura barreira das estatsticas 
ex post. facto. Tentarei fazer as minhas convices e pressuposies to claras quanto possvel,  medida que avanamos, 
confiante em que o leitor poder discordar melhor e chegar s suas prprias convices, neste dilogo, se no alimentar 
confuses a respeito das minhas. 
2 AlIen Wbeelis, The Qnest for Identity, Norton, Nova York, 
1958, pgs. 18 e 23. 
cer influncia: Eu posso no saber quem sou mas, pelo menos, posso fazer com que os outros notem que existo. Em 
nossa fase atual de perda do sentido de significao, entretanto, o sentimento tende a ser este: Mesmo que eu saiba quem 
sou, no poderei, de qualquer modo, causar diferena alguma, como indivduo. 
Desejo aqui citar, como exemplo dessa perda de significao individual, uma srie de incidentes que significaram algo 
importante para as pessoas, em todo o pais. Refiro-me  revolta, como os inimigos a classificaram, ou resistncia 
passiva, como os estudantes lhe chamam, no campus da Universidade da Califrnia em Berkeley. Sejam quais forem os 
fatores complexos e sutis subjacentes nesse protesto, parece que todas as partes esto de acordo em que constituiu uma 
erupo, nos estudantes, da poderosa e profunda resistncia contra o anonimato dos estudantes na moderna fbrica 
universitria. O estado de esprito que culminou nesse protesto foi excelentemente descrito na veemente retrica de Mano 
Savio, o finalista de Filosofia que liderou o macio sit-in que ocasionou uma onda de prises: 
Chega um momento em que o funcionamento da mquina [da educao coletivizada] torna-se to odioso, gera em nosso 
ntimo tants repugnncia, que no se pode tomar parte nela.., temos de lanar os nossos corpos sobre as suas engrenagens, 
seus eixos, suas alavancas, sobre todo o aparelho, e fazer com que pare... 
Outra prova de que o substrato profundo das emoes dos estudantes que entraram em erupo nessa poca foi o protesto 
contra serem tratados como dentes annimos na engrenagem de um sistema tremendo  vista nas razes que numerosos 
estudantes deram para o valor das manifestaes de resistncia. Depois das manifestaes, muitas pessoas que tinham 
participado vieram dizer-me, com considervel emoo: Todo o mundo fala agora com todo o mundo no cam pus. 
Nenhuma declarao mais clara poderia ser feita sobre o fato de que o que estava em jogo era a situao insustentvel de 
nigum sabe o meu nome, eu no significo coisa alguma. De fato, um dos valores mais claros de ser rebelde, como 
Camus e tantos outros, ao longo da Histria humana, disseram e eu tentarei indicar mais adiante, neste livro,  que, pelo ato 
de rebeldia, eu foro as autoridades impessoais ou o sistema demasiado sistemtico a olharem para mim, a reconhecerem-
me, a admitirem que eu sois, a levar em conta a minha tora. A ltima palavra no foi sublinhada para fins retricos: 
quero dizer, literalmente, que se eu no posso 
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ter algum efeito, se a minha potncia no puder ser exercida e ter importncia, serei, inevitavelmente, uma vtima passiva de 
foras exteriores e sentir-me-ei completamente despido de significao. 
Como essa experincia da insignificncia estudantil se reveste de importncia para o que se segue neste livro, assinalemos 
algumas provas de que o anonimato da fbrica educativa no , em absoluto, uma projeo da fantasia neurtica ou subje, 
uva dos estudantes. 
Em Berkely, como em muitos outros coas pus universitrios estaduais, a imagem de uma fbrica deixou de ser uma piada. 
A p0- pulao estudantil de Berkeley totaliza cerca de 27.500 alunos. Com um corpo docente em tempo integral de 1 . 600 
professores, alguns dos quais esto de licena ou dedicados a pesquisas, a proporo efetiva discente-docente  de 
aproximadamente 18:1, de acordo com os dados de funcionrios universitrios. 
Os membros mais eminentes do corpo docente de Berkeley encontram-se freqentemente to absorvidos em pesquisas que 
dispem de pouco tempo para dedicar aos estudantes. Os professores mais jovens, enfrentando uma batalha publique ou 
sucumba para permanecer em Berkeley, tampouco tm muita tempo para os estudantes. O nus de ensinar recai 
pesadamente sobre os auxiliares de ensino, que so usualmente estudantes recm-diplomados e inexperientes, trabalhando 
duro para obter crditos ou concorrer a um mestrado... 
Uma das muitas ironias da situao em Berkeley  que grande parte do que aconteceu tinha sido claramente previsto pelo 
Reitor Kerr em seu livro Tke Uses o! the University, publicado em 1968. 
O De. Kerr, um especialista em relaes industriais, com uma reputao nacional como mediador em questes trabalhistas, 
adverte contra a revolta incipiente dos estudantes, contra o professorado iii absentia e a frustrao dos estudantes 
fermentando sob uma apa de regras impessoais. No que hoje podemos ler como uma exposio da crise de Berkeley, o 
Ur. Kerr, que foi reitor da Universidade desde 195S, advertia: Os estudantes tambm querem ser tratados como 
indivduos distintos. 3 
Tambm deve ficar claro que o fenmeno contemporneo da revolta estudantil no  causado por alguns homens 
diablicos com assento nos gabinetes dos reitres ou nos conselhos de administrao das universidades. Que os prprios 
estudantes vem a fonte impessoal do mal  demonstrado em numerosos editoriais da imprensa estudantil, como o 
seguinte: 
Extraido de um editorial, Berkeley Lesson, na New England nocixztian Reviow, a publicao oficial da New England 
Association of Colleges and Secondary Sehools, Inverno de 1965, pgs. 14-15. 
Uni colunista estudantil da Universidade do Illinois,. escrevendo no Daily flUni, apelou para uma maior participao dos 
estudantes no planejamento de um novo edificio que ser pago, em parte, por fundos estudantis.  nossa misso, como 
estudantes interessados... ajudar a salvar este maravilhoso organismo, a universidade, da sua prpria eficincia, escreveu ele, 
acrescentando: .. . a perda de um edifcio nada significa, comparada com a perda do sentido de comunidade aqui reinante.3 
O que est ocorrendo  um fenmeno inevitvel dos nossos tempos, o resultado iniludvel do coletivismo, da 
educao de massa, da comunicao de massa, da tecnologia de massa e outros processos de massa que 
formam a mente e as emoes das pessoas modernas. 
Que no se trata de episdios fugazes  demonstrado pelo fato de que, apesar da recomendao do comit 
inter-universitrio no sentido de que se fizessem as reformas pedidas pelos estudantes, uma nova apatia caiu 
sobre o camptss, da qual, segundo o Dr. Kerr adverte, novos protestos no tardaro em brotar. 
Qual  o conflito de maior profundidade que est subentendido na agitao estudantil? O Dr. Kerr explica-o como sendo o 
dilema que decorre da retirada crescente dos professores para s atividades de pesquisa especializada, numa poca em que 
mais estudantes.., querem obter da sua educao uma filosofia pessoal e social, tanto ou mais do que uma preparao 
vocacional. A Dr. Rosemary Park, diretora do Barnard College, descreve os tempos perigosos em que a universidade se 
encontra hoje, quando o descontentamento dos estudantes com a educao nunca foi mais estridente nem o desinteresse 
docente pela instituio que servem mais evidente. No causa surpresa, pois, que os atuais estudantes de Berkeley 
proclamem que a nica maneira de restaurar uma tradio significativa na vida universitria  a conduo de uma guerra de 
guerrilha intelectual  uma frase curiosamente contraditria, mas altamente significativa  contra aquelas universidades que 
foram fundadas to-somente para satisfazer s necessidades operacionais das grandes empresas e da administrao 
pblica, em vez das necessidades do homem moral. 4 O fruto de tudo isso  uma nova e muito importante forma de luta 
em prol dos valores humanos e contra o Moloch mecnico e sofisticado da educao, que 
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ameaa devorar o que  mais precioso para cada um de ns: 
a nossa imaginao e a nossa prpria conscincia. Com efeito, 
 interessante assinalar que, nessa batalha, as exigncias e apelos morais partem dos estudantes e no dos professores! 
Ora,  importante recordar que esses estudantes foram criados, como todos ns neste pas, desde o tempo dos pioneiros de 
fronteira em djante, na crena de que o indivduo  quem conta, de que o seu poder  decisivo, a longo prazo, e de que. em 
democracia,  a palavra do indivduo que determina as diretrizes policas. E agora vem-se reduzidos a simples acessrios 
em vastos processos tipo fbrica, que parecem funcionar autonomamente e sob o seu prprio poder satanicamente 
impessoal. Os processos de massa so uma caracterstica do perodo histrico transitrio em que vivemos e no vejo 
uma maneira fcil de contornar as crises que resultaram e as revoltas que ainda ocorrero. Elas so sintomticas do 
deslocamento da conscincia humana em nosso tempo; elas expressam a luta dos seres humanos  neste caso, 
particularmente, os estudantes  para resolver os dilemas, at onde for possvel, ou para aceit-los, quando a resoluo  
impossvel. 
ASSIM, OS DILEMAS com que nos defrontamos so intensificados pelas convulses culturais e histricas 
contemporneas da civilizao ocidental, convulses essas que tornam inevitvel que a imagem que o indivduo faz de si 
prprio seja grandemente abalada. Robert e Helen Lynd escreveram sobre a confuso do papel do indivduo em 
Middletown, h trs dcadas; o cidado  colhido num caos de padres conflitantes, nenhum deles totalmente condenado 
mas nenhum deles claramente aprovado e isento de confuso; ou quando as sanes do grupo so claras em exigir um certo 
papel de um homem ou mulher, o individuo defronta-se com requisitos culturais e sem meios imediatos de satisfaz-los. 
Os Lynds relacionaram isso com a convulso scio-econmica em Middletown, na dcada de 1930; mas eu acredito que um 
maior e mais fundamental conflito de papis  uma experincia de ausncia de quaisquer papis viveis  est ocorrendo 
em nosso mundo atual, trs dcadas mais tarde. Faltando mitos positivos para gui-los, muitos homens sensveis 
contemporneos encontram unicamente o modelo da mquina que lhes acena de todos os lados, para que eles se reformem  
sua semelhana. Os protestos que ouvimos so os sons estrepitosos da luta  angustiante, muitas vezes desesperada mas 
nunca abandonada  contra essa moderna Circe. 
O smbolo mais flagrante do sentido de insignificncia do indivduo , evidentemente, o espectro onipresente da guerra 
termonuclear. At onde posso observar, as pessoas em Nova York e em todo o Leste americano  e no h razo alguma 
para supor que o estado de esprito seja diferente em outras partes do pas, se dermos o necessrio desconto s defasagens 
culturais e s bolsas de encapsulao  acreditam ser impotentes diante dessa possibilidade de guerra nuclear; e a impotncia 
leva  confuso, apatia e dilacerante convico de que Eu no conto para nada, por mais que isso seja encoberto por 
diverses e um frentico desejo de companhia. Por seu turno, isto conduz a muitos crculos viciosos que passaremos agora 
a examinar. Escolhi os seguintes exemplos porque eles ilustram perfeitamente a dinmica psicolgica neste dilema. 
No outono de 1961, desenvolveu-se na regio Leste, em face da ameaa de guerra termonuclear, um curioso movimento de 
pnico que gravitou em torno da construo de abrigos contra as poeiras radioativas. Disse curioso, no porque a 
ansiedade fosse propriamente inesperada  seguiu-se ao pnico bastante real da crise de Berlim  mas por causa de certos 
sintomas psicolgicos que surgiram. Durante essas semanas, participei em numerosas discusses e debates pblicos na 
rdio e televiso, e tive a estranha impresso de que, para muitas pessoas, os abrigos atmicos representavam o rastejar de 
volta s cavernas no seio da terra, como uma manifestao da nossa convico de que, em nossa impotncia, s poderamos 
retornar a um novo ventre, sendo nosso interesse exclusivo uma preocupao infantil em salvar a prpria pele. 
Compreensivelmente esmagadas pela sua impotncia na crise, as pessoas tinham propenso a agir como se nada mais lhes 
restasse do que esperar e rezar para que a sorte impedisse o holocausto, enquanto elas prprias, como avestruzes, apenas 
podiam esconder-se sob a terra. Lamentavelmente, a atitude do Governo, recomendando aos que podiam  o que significava 
os ricos dos bairros residenciais  que construssem seus abrigos particulares, apenas acentuou essa impotncia. 6 
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com considervel experincia na administrao pblica, disse em resposta a uma pergunta de uma das muitas 
centenas de pessoas no salo: Voc no pode ter qualquer influncia na questo de se ir haver guerra ou 
no. Isso ser inteiramente decidido pelos conselhos de um punhado de lderes polticos de alto nvel reunidos 
em Berlim. Isso,  claro, era exatamente o que as pessoas, de qualquer forma, se mostravam propensas a 
acreditar. 6 Se elas estivessem um pouco mais convencidas da insignificncia de seus prprios atos, nem teriam 
tido sequer o trabalho de vir a discusses pblicas como aquela ou mesmo de ligar o rdio para acompanha-
las. 
O ponto que eu desejo sublinhar  que, quando os indivduos sentem a sua insignificncia como pessoas, eles 
tambm sofrem um abalo em seu sentido de responsabilidade humana. Por que carregar responsabilidades nas 
costas, se o que fazemos no interessa, de qualquer modo, e devemos estar, a todo momento, prontos para 
fugir? Que smbolos vivos da nossa impotncia, essas horrendas feridas abertas no solo! E que testemunho da 
desintegrao dos valores sociais era a solicitao para que cavssemos os abrigos durante a noite, a fim de 
que os nossos vizinhos no soubessem onde eles se encontravam e, no momento do perigo, um homem, com 
duas ou trs pessoas de sua famlia reunidas em torno dele, pudesse rastejar at a caverna e a obter alguma 
proteo isolada! (A proteo, de qualquer modo, era extremamente ilusria, como fomos informados mais 
tarde pelos fsicos que estavam a par das inevitveis tempestades de fogo.) Ou um abrigo de concreto j 
pronto podia ser adquirido, como a revista Life e a televiso mostraram, com tubos de ventilao para o mundo 
acima, todos os vveres armazenados nas paredes, Coca-Cola e vitrola para os adolescentes, e luz de leitura 
para distrair os adultos, enquanto as bombas choviam na Terra  tudo isso pelo preo mdico de 20.000 
dlares. 

Recordo que um dos meus antagonistas, num debate radiofnico na poca do pnico, um eminente economista poltico 
O Presidente Kennedy apercebeu-se de que esse conselho dos abrigos privados era um erro e a recomendao foi rescindida 
em dois meses. No tenho a impresso de que muitos abrigos privados foram realmente construdos, em parte, sem 
dvida, porque as pessoas viram-n colhidas no mesmo crculo vicioso psicolgico que estamos examinando. 

A minha posio pessoal e a de muitas outras pessoas no pblico era, claro, radicalmente contrria  do meu 
antagonista. Limitar-me-ei aqui a dizer que a tese ventilada pelo meu antagonista era unia daquelas questes 
que dependem, em sua verdade ou falsidade, fundamental, de saber, exatamente, se atuamos 011 fl.0. Se 
tivssemos aceito a tese do meu antagonista, permaneceriamos passivos; e a sua tese t&nar-se-ia verdica pelo 
fato de a aceitarmos. Se, por outra parte, recusamos aceit-la mas fazemos tudo o que pudermos, por muito 
pouco que seja, para influenciar o Congresso, o Presidente e outros lideres, ento at um grupo to pequeno 
quanto essas centenas  e certamente os milhares que nos escutavam pelo rdio  poderia ter alguma 
significao, mesmo que inicialmente fosse infinitesimal.  nesse ponto que a liberdade poltica comea, como 
indicarei mais adiante. 
Mas o aspecto mais deprimente de tudo isso era que esse rastejar de volta  caverna significava uma proteo 
comprada  custa da destruio do amor e da confiana humanos. Ainda recordamos vivamente as 
consoladoras garantias dadas por alguns ministros da igreja e outros respeitveis .guardies da moral da 
nao de que era tico abater a tiro o nosso vizinho e seus filhos, se esses infelizes tentassem entrar em nosso 
abrigo num momento de perigo e de pnico. 
Assim, a impotncia diante da guerra termonuclear converteu-se em ansiedade, a ansiedade em regresso e 
apatia, estas, por sua vez, em hostilidade, e a hostilidade numa alienao do homem em relao ao 
homem. Isso  um crculo vicioso que  transformado em atos quando o nosso sentido de significaG  
minado. Assim, o nico caminho que nos resta   do retrocesso, numa regresso psicolgica para um estado 
infantil, uma encapsulao voluntria em nossa combinao derradeira de ventre e sepultura, em que nenhum 
cordo umbilical  necessrio, visto que o alimento est armazenado dentro do tmulo como nas cavernas 
funerrias que o homem neoltico construa para a spa jornada at a regio dos mortos. 
Mas o ser humano jamais renuncia fcil ou simplesmente  sua potncia. A ansiedade  gerada em seu ntimo 
na proporo direta da convico de sua prpria impotncia. O que  importante, neste ponto,  enfatizar o 
bem conhecido crculo vicioso de pnico que j mencionamos  da ansiedade  apatia, desta  hostilidade e ao 
maior isolamento entre a pessoa e seus semelhantes  um isolamento que, finalmente, intensifica o sentimento 
de insignificncia e impotncia do indivduo. A desconfiana e a inimizade em relao ao s6ximo, em tais 
pocas, tornam-se aceitveis e morais, de uma forma que nos horrorizaria (e que, portanto, seria reprimida) 
em tempos convencionais. E a averso ao prximo, assim como a disposio de destru-lo, converteram-se, de 
um modo estranho e invertido  estranho convencionalmente mas no clinicamente  numa vlvula de 
escapamento pata a nossa prpria ansiedade e impotncia. O que acontece, em tais momentos de ansiedade,,  
apenas a expresso extrema da desintegrao do sentido de significao do homem como indivduo e, por 
conseguinte, a sua perda de capacidade de deciso e responsabilidade individuais. 
 guerra do Vietn  a mais indesejada guerra da Histria, como tem sido chamada  nada fez para dissipar o 
estado de esprito gerado por crises anteriores ou atenuar o sen 
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timento de uma profunda e perturbadora impotncia. O sentimento de impotncia no se limitava, em absoluto, 
aos que se opunham ao conflito, visto que parecia afetar, de um modo igualmente insidioso, aqueles que 
acreditavam na guerra e os que a condenavam. 
Quero examinar essa crise como um exemplo ilustrativo do fato de que todos ns, quer sejamos pr ou contra a 
guerra, somos colhidos numa situao historica de convulso em que no existe uma noo clara de certo e 
errado, em que a confuso psicolgica , portanto, inevitvel e  um fato mais aterrador que todos os outros  
nenhuma pessoa ou grupo de pessoas se encontra em posio de exercer um poder significativo. O poder 
assume um carter annimo, automtico e impessoal. 
A minha finalidade, neste ponto, no  poltica mas a de descrever to claramente quanto puder uma situao 
que influi na insignificncia psicolgica, para que possamos voltar a uma anlise desse problema. Nas 
audincias da Comisso de Relaes Externas do Senado, as mesmas perguntas foram repetida- mente 
dirigidas ao Secretrio de Estado Rusk, ao Secretrio da Defesa MeNamara e a outras personalidades do 
Governo: Por que  que estamos no Vietn? Quais so as nossas verdadeiras metas? Quais eram os nossos 
poderes ali e o que  que se podia, realistamente, esperar conseguir? Aps numerosos depoimentos (os 
nossos dados so, pelo menos, abundantes e acessveis, graas  comunicao de massa da televiso e da 
imprensa), o Senador Fulbright e outros senadores, que de forma nenhuma podiam ser considerados estpidos 
ou partidrios da guerra, declararam que essas perguntas ainda continuavam sem resposta. 0 Sr. Fulbright, 
assim relatou o New York Times,  disse que tinha a maior dificuldade cm compreender quais eram os 
objetivos reais do Governo e se o que procuramos  realizvel. Como o Senador Fulbright continuamente 
sublinhou e os representantes do Governo no desmentiram, era uma guerra de final indeterminado; cada 
vez maior poder, sempre com a possibilidade do poder supremo da bomba nuclear pairando ao largo, era 
lanado numa situao em que, por definio, no tnhamos nem podamos ser controle sobre as decises 
crticas. Os jornalistas tentaram em vo levar McNamara a declarar quais eram os planos a longo prazo para o 
engajamento de tropas, mas ele recusou-se obstinadamente a anunciar mais do que o fato pragmtico imediato 
de que o Departamento de Defesa estava preenchendo os pedidos do General Westmoreland; 
e o Presidente, quando apertado com perguntas semelhantes, replicava: No tenho pedidos por satisfazer na 
minha mesa. 
Ora, a ironia da situao, que no deve ser toldada por imputaes moralistas contra este ou aquele Secretrio, 
era que, de fato, isso era tudo o que eles podiam dizer. Com efeito, pela prpria estrutura da situao, eles no 
tinham controle algum sobre os planos a longo prazo: a China e outras potncias podiam alterar esses planos a 
qualquer momento. O cidado de Minneapolis ou Denver que sentia a sua prpria falta de significao nessa 
situao poderia supor, por uma psicologia anacrnica de algumas dcadas atrs, que outros em Washington 
estavam, pelo menos, tomando as decises significativas. Mas, quando voltvamos os olhos para 
Washington, verificvamos que ningum, em qualquer acepo fundamental, dispunha de um poder 
significativo; todos, incluindo o Presidente, podiam planejar unicamente num limitado prazo de tempo e dentro 
de variveis incertas, visto que os dados decisivos no estavam simplesmente ao alcance deles; e a resposta 
pragmtica, dada pela situao imediata, era praticamente tudo aquilo a que podiam chegar. 
O dilema era sombrio e tragicamente real. Esse dilema era um resultado inevitvel da natureza do nosso perodo 
histrico transitrio, quando o poder impessoal assumiu to vastas implicaes e significados, e a conscincia, 
responsabilidade e intenes humanas no o acompanharam e, provavelmente, no podiam ter acompanhado o 
desenvolvimento desse poder. No estou formulando uma declarao de fatalidade histrica nem estou 
pretendendo dizer, em absoluto, que nada podia ser feito para melhorar a situao criada pela guerra 
vietnamita; a apatia e a passividade so as ltimas coisas no mundo que eu proporia. A minha tese  que, se a 
situao histrica e as im8 Eu prprio tenho estado continuamente preocupado com a ao nessas questes, 
porque acredito que a apatia social  o nosso maior perigo. A minha opinio pessoal era que, independentemente 
de como e por que entramos no Vietn, no podamos, simplesmente, cair fora. Acredito que os poderes conferem 
responsabilidade e teria sido irresponsvel para uma nao do poderio da nossa bancar o avestruz no Oriente e 
no se aperceber de que exercemos uma tremenda influncia em todas as regies do mundo, quer decidamos 
exerc-la de um modo esclarecido ou no. Acredito que o nosso no-reconhecimento perp4tuo da China 
Comunista foi um exemplo da nossa atitude de avestruz. A conscincia ampliada e aprofundada que ser 
necessria para as solues dos nossos problemas ter de incluir, em meu juzo, um modo inteiramente novo e 
original de encarar outras naes como a China, assim como outras raas. 
7 Neto Yorlc Tirites, 4 de maro de 1966. 
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plicaes psicolgicas que isso tem para os que vivem neste momento forem reconhecidas, seremos ajudados a transferir as 
nossas abordagens de uma politica de autofrustrao para outras diretrizes que, pelo menos, tenham alguma probabilidade 
de resultados construtivos, em ltima instncia. Creio que temos estado bancando o avestruz com a questo do poder, 
recorrendo, por um lado, a uma anacrnica poltica militar do sculo XIX e, por outro lado, a um pacifismo farisaico. 
Ambas as atitudes eram supersimplificaes  e supersimplificar  altamente perigoso na era da bomba nuclear. Uma 
conscincia ampliada e aprofundada, e um sentido de responsabilidade impregnado de imaginao que pudesse conceber 
novas formas de relacionamento com o Oriente, parecem ser necessrios a uma soluo construtiva dos 
nossos problemas. Mas essa possibilidade baseia-se em fazermos frente ao mais profundo dilema 
entre o p0 der impessoal da tecnologia, por um lado, e os valores humanos, por outro. 
Nesse vazio de poder  isto , a aplicao de um poder cada vez maior (neste caso, o poder militar) a uma situao 
em que uma pessoa no dispe de uma opo significativa final  
o perigo real era que nos retirssemos para a nica resposta acessvel, notadamente, a resposta pragmtica, a resposta 
que pode ser dada pela logstica, a resposta a que se pode chegar pelos nossos computadores, a resposta impessoal, a 
resposta fornecida pela prpria tecnologia cuja proliferao ilimitada e esplendorosa tinha tido um papel central em 
colocar-nos na situao em que a nossa fora de destruio excedia, de forma to vasta, a nossa capacidade de deciso 
significativa. Como indicarei adiante,  to absurdo responsabilizar a tecnologia  e to cientificamente ignaro  quanto  
absurdo, moralmente, responsabilizar alguns lderes governamentais malficos em outros pases  uma espcie de 
farisasmo que conduz  iluso, to comum em psicoterapia, de que se, ao menos, as outras pessoas mudassem, ser-nos-
iam poupados os nossos grandes problemas. 

Se bem que, mais adiante, iremos examinar as possveis respostas a esses problemas psicolgicos, talvez seja elucidativo 
indicar aqui, brevemente, que a colocao do problema poltico na conscincia, a identificao com ele e, depois, enfrent-lo 
francamente, j constitui o primeiro passo no desenvolvimento daquela conscientizao mais profunda que pode resolver o 
problema. Um sentimento de responsabilidade, impregnado de imaginao, parece-me ser o primeiro fator essencial. Em 
segundo lugar, formar uma poltica baseada em metas h,utnanas, no naquelas que so dadas pelo poder pragmtico, 
tecnolgico. Terceiro, uma recusa rigorosa em permitir que a dificuldade de formar objetivos a longo prazo, assim como a 
facilidade de deixar que os nossos computadores formem os nossos objetivos a curto prazo, nos impea de dedicar 
pensamento e energia ao projeto de finalidades a longo prazo. Precisamos de algum sentido de propores ao relacionar 
meios e fins, escreveram os diretores do jornal Ckristian%tY and Cnsts. O que esta faltando, at agora, . a disposio de 
encarar as realidades e a imaginao para procurar melhores mtodos do que a atual mistura contraditria de retrica 
pacfica e poltica obstinada  5 de maro de 1966. 
A minha finalidade neste livro, repito, no  poltica, mas de deixar to claro quanto puder como surgem determinados 
problemas psicolgicos de grande importncia. Uma situao de impotncia e falta de significao, como a que foi 
apresentada acima, leva-nos, compreensivelmente,  confuso e, depois,  apatia. Isto, por sua vez, gera um crculo 
vicioso na dinmica psicolgica, como j mencionamos e que passaremos agora a explorar mais profundamente. 
QUANDO o indivduo perde a sua significao, ocorre um sentimento de apatia, que  uma 
expresso do seu estado de conscincia diminuda. No ser essa abdicao da conscincia o 
verdadeiro perigo  o perigo de que a nossa sociedade se encaminhe na direo do homem que espera que as drogas 
faam-no sentir conforto e que a mquina no s satisfaa todas as suas necessidades mas, na forma de mecanismos 
psicanalticos, tambm o faa feliz e capaz de amar? Quando Karl Jaspers nos fala sobre os perigos do homem moderno 
perder a conscincia do seu prprio eu, no est se expressando em hiprbole; devemos lev-lo muito a srio. Pois essa 
perda deixou de ser, simplesmente, uma possibilidade terica imaginada pelos psicanalistas ou os filsofos existenciais 
mrbidos. 
Essa diminuio de conscincia, creio eu,  central para a mais profunda forma da perda do sentido de significao. O que 
est implcito  que esta poder ser a ltima era do homem histrico, isto , a ltima era em que o homem sabe que tem uma 
histria. No a ltima era em que existe uma histria fatual  no  esse o ponto que interessa  mas a ltima era em que eu 
posso me afirmar, cnscio de mim prprio, como um ser humano que sabe achar-se neste ponto da Histria e assumir 
responsabilidade por esse fato, que pode usar a sabedoria do passado para iluminar a vida e o mundo  sua volta. 
Semelhante ao requer uma conscincia pessoal que possa afirmar-se a si prpria, o que, por sua ve requer que eu acredite 
na minha pr- 
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pria significao. interessa, pois, que eu atue, e que atue na convico de que as minhas aes podem ter 
alguma influncia. 
Dissemos que o que h de diablico nesse dilema no  a tecnologia e  absurdo pensar que, se jogssemos 
fora a tecnologia, poderamos escapar aos nossos dilemas humanos. Em seu nvel bvio, a tecnologia  um 
jogo de ferramentas e a questo importante  esta: Para que fins so essas ferramentas usadas? Num nvel 
menos bvio,  verdade que a tecnologia modela a imagem que formamos de ns prprios, ao condicionar a 
espcie de informao que escutamos. Mas a ameaa decisiva, no tocante  tecnologia, no reside nesses dois 
nveis:  que sucumbimos  tentao de usar a tecnologia como um modo de evitar um confronto com a nossa 
ansiedade, a nossa alienao e a nossa solido. Quando um homem est ansioso a respeito da guerra 
termonuclear, ele pode esperar que, com mais alguns msseis, estaremos todos seguros. Quando ansioso em 
virtude da solido, ele pode recorrer a um psicanalista, ou aprender alguma nova tcnica de condicionamento 
operante, ou tomar alguma droga. de modo que, a tanto por hora ou por dose, possa ser transformado num 
homem capaz de amar e de ser feliz. Mas a tecnologia usada para fugir  ansiedade torna o homem ainda mais 
ansioso, mais isolado, mais alienado, a longo prazo, pois o priva progressivamente de sua conscincia e de sua 
experincia de si mesmo como pessoa equilibrada e dotada de significao. 
O uso fundamentalmente auto-destrutivo da tecnologia consiste em empreg-la para preencher o vazio da 
nossa conscincia diminuda. E, inversamente, o desafio bsico com que o homem moderno se defronta  se 
ele poder ampliar e aprofundar a sua prpria conscincia, a fim de preencher o vazio criado pelo fantstico 
recrudescimento do seu poder tecnolgico. Parece-me ser essa  e no o desfecho de uma determinada guerra  
a questo de que depende a nossa sobrevivncia. 
Existe, porm, um certo dilema que precisamos mencionar e que foi mais dificultado pela tecnologia moderna. 
Trata-se do fenmeno do homem-organizao. Cada vez mais, em nosso tempo  isso  um resultado 
inevitvel da coletivizao  o homem-organizao  o que triunfa. Ele caracteriza-se pelo fato de que s tem 
significao se renunciar  sua significqo. Um curioso paradoxo se apresenta em alguns pacientes que nos 
procuram em Nova York: um indivduo conquista seu status na Madison Avenue ao preo da abdicao de 
sua originalidade. Converte-se no homem que funciona bem numa organizao, o harmnico homem de 
equipe, o trabalhador que mantm uma colorao protetora para que no se destaque e seja alvejado. 
Nessa medida, diz-se que ele  significante, mas  uma significao comprada, precisamente,  
custa da renncia  significao pessoal. 
A perda da experincia de nossa prpria significao conduz quela espcie de ansiedade a que 
Paul Tiliich chamou a angstia da insignificncia, ou quela ansiedade que Kierkegaard classificou 
como o medo do Nada. Costumvamos falar sobre essas coisas como teorias psicolgicas e, h uma 
vintena de anos, quando eu estava realizando o meu treino psicanaltico, discutamo-las como 
fenmenos psicolgicos apresentados por pessoas neurticas. Hoje, tal ansiedade  endmica em 
toda a sociedade. Estas so algumas das consideraes que me levam a sugerir que no existe 
esconderijo algum onde possamos nos refugiar dos dilemas psicolgicos do nosso tempo. Por 
conseguinte, nada nos impede que os defrontemos diretamente.  o que tentaremos agora fazer. 
